Mindfulness, Vinculação e Corpo

Mindfulness e Estilo de Vinculação

Em cima falámos das vantagens, benefícios e desafios da prática mindfulness. Agora vamos falar na forma como se poderá relacionar com o estilo vinculativo de cada um.

O estilo vinculativo está relacionado com a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros. Está também relacionado com a forma como lidamos com as nossas emoções, sentimentos e sensações corporais.

Os estudos e investigações na área da Vinculação e Desenvolvimento Infantil levaram os psicólogos a revelarem dois tipos centrais de vinculação: a vinculação segura e a vinculação insegura. Na vinculação segura, a criança tem vontade de explorar, reage à separação da mãe mas as suas respostas são menos “extremadas” que nas crianças com vinculação insegura.

É neste último tipo de vinculação que muitas vezes surgem problemas com a “gestão das emoções”, algo a que na área da Psicologia se chama de “desregulação emocional”. As crianças aprendem a regular as suas emoções com a ajuda do cuidador principal, neste caso na maioria das vezes, da mãe. O cuidador principal regula as emoções do bebé ou da criança dando nome às emoções, acalmando, contendo e espelhando as mesmas.

É exemplo de desregulação emocional a vinculação das crianças evitantes que podem ter uma tendência para se “desligarem” dos sentimentos, emoções e desejos que as ligam aos principais cuidadores, ou seja, a sua estratégia vinculativa consiste num “desactivamento” do que as pode ligar e aproximar a outras pessoas. Os pais das crianças com esta vinculação muitas vezes podem tornar-se rejeitantes e afastados.

Na vinculação preocupada (outro tipo de vinculação insegura) a estratégia da criança consiste precisamente no oposto, ou seja, numa hiperactivação da estratégia de vinculação, como se quanto mais aflição/desconforto a criança mostrar ao cuidador principal maior atenção receberá. É também chamada de vinculação ambivalente. De um modo geral os pais da criança com este tipo de vinculação são intermitentes na antenção que dão.

Por último existe a vinculação desorganizada, muitas vezes fruto de experiências traumáticas e/ou perda e negligência repetitivas ao longo do tempo. São exemplo disso experiências de abuso físico, sexual ou emocional bem como experiências de negligência intensa. Nestas situações muitas vezes os pais da criança podem ser assustados e/ou assustadores.

No estado adulto, há obviamente a tendência para se manterem os estados vinculativos formados na infância. É aqui que a prática mindfulness pode ser útil, ou seja, pode ajudar a pessoa a lidar melhor com os seus sentimentos, sensações corporais e estados emocionais. Isto para uma pessoa com um estilo vinculativo predominantemente evitante pode consistir num “reconectar” ao corpo, na medida em que a pessoa por norma se sente “desligada” dos sentimentos, emoções e das sensações do seu corpo (este processo tem o nome de resomatização); numa pessoa com um estilo vinculativo preocupado um dos objectivos poderá ser diminuir a intensidade das respostas emocionais bem como as sensações corporais mais intensas associadas a este estilo de maior activação emocional. Uma pessoa com um estilo vinculativo desorganizado muitas vezes oscila entre sentir as suas sensações físicas e emoções muito intensamente ou sentir a indiferença e o desligamento. Também aqui a prática de mindfulness pode ser útil, na medida em que se traz a mente ao corpo, de modo a regular as sensações físicas e somáticas, a entender a que sentimentos estão associadas e como podem ser interpretadas. Geralmente as pessoas com passados que contêm trauma, situações de perda ou situações com contornos traumáticos têm tendência para sentir muito intensamente as sensações físicas, vivendo assim como se estivessem presas no desconforto do seu corpo. Por outro lado podem-se sentir como se não tivessem corpo, dissociando-se dele; a prática de mindfulness torna-se assim importante, quer no reconhecimento, modulação e interpretação de sensações físicas e emoções bem como também em ser um antídoto à dissociação – trazendo ao corpo uma mente que ajuda a modular e a fazer sentido da experiência corporal. Este processo tem o nome de desomatização.

Estas formas de lidar com as emoções, sentimentos e sensações corporais estão relacionadas com o Sistema Nervoso Autónomo, que por sua vez se divide no Sistema Simpático, responsável por respostas que envolvem acção e pela resposta de “luta ou fuga” (fight or flight response) e no Sistema Parasimpático, responsável por uma desactivação e pela chamada resposta de “congelamento”. Esta resposta de “congelamento” está muitas vezes associada à presença de trauma, pois consiste numa espécie de “fuga quando não há fuga”, ou seja não há outras hipóteses, a não ser “tirar” a mente do presente traumático através de uma resposta dissociativa.

A prática de Mindfulness pode ser desta forma útil e terapêutica em pessoas com estilos de vinculação diferentes.


Corpo, Vinculação e Mente

No seu livro O Erro de Descartes (1994) António Damásio mostra evidência neurobiológica acerca da inseparabilidade entre mente e corpo, dizendo que os sentimentos são essencialmente as leituras da mente dos estados corporais e de que essa razão deve ser ancorada nos sinais emocionais provenientes do corpo.

Por vezes muitos de nós parecemos viver como se habitassemos uma mente sem corpo ou um corpo sem mente.

Com uma mente que inclui o corpo sentimo-nos centrados, as nossas acções são provenientes do interior. Temos um acesso psicológico enriquecedor e útil às nossas sensações somáticas e às nossas emoções. A sensação sentida aqui é a de que as formas nas quais nós pensamos bem como sentimos “são provenientes de, são moldadas por e são dadas significado através da vivência em corpos humanos” (Lakoff & Johnson, 1999).

Pessoas que podem ser descritas em termos de vinculação como evitantes ou “desmissivas” são geralmente (mais ou menos) “desencorporadas”. Tal como um paciente afirmou acerca da sua vivência “eu circundo sobre a minha experiência em vez de aterrar no meu corpo”. Para estas pessoas, como o corpo funciona, ou se parece visto de fora pode ser importante, mas a forma como o corpo se sente, as suas sensações no seu interior, não são tão importantes. Operando predominantemente através do hemisfério esquerdo do cérebro (responsável pela linguagem), estas pessoas podem parecer viver como se não fossem informadas pelo hemisfério direito do cérebro (ligado às emoções). Assim, torna-se importante ajudar a reclamar um corpo que tem sentimentos e que sente como uma parte do self inerente e essencial.

Em contraste marcado com as pessoas que parecem habitar uma mente sem corpo são aquelas que parecem ter um corpo que não tem mente – um corpo que domina o self porque as suas expressões não podem ser questionadas pela mente. Estas pessoas, tal como referido em cima, podem ter vinculações preocupadas e não resolvidas em relação ao trauma e podem-se sentir tiranizadas pelo corpo que as parece trair. Frequentemente são pessoas que somatizam cujas emoções e memórias encontram expressão principalmente na linguagem do corpo. Quando estas emoções e memórias se tornaram intoleráveis, o corpo que o(a)s sequestra é abandonado fisicamente: deixar o corpo – através da dissociação – permite “fuga quando não existe fuga” (Putnam, 1992). Tais pessoas não conseguem aceder aos recursos de um corpo que é mindful – um corpo ao qual é dada consciência de modo a que possa não só ser sentido e conhecido mas que possa também sentir e conhecer.

Praticar mindfulness pode ser desta forma uma base para se reconectar à experiência corporal bem como para modular os sentimentos e sensações somáticas existentes na mesma. - faça algumas respirações profundas e foque-se na sensação dos seus pés no chão para se centar a si mesmo(a).

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