terça-feira, 01 agosto 2017 04:12

NECESSIDADES BÁSICAS

 

Enquanto bebés e crianças os humanos são vulneráveis e muito frágeis e de maneira a desenvolverem-se de uma forma psicologicamente saudável certas necessidades básicas têm de ser atingidas. É disso mesmo que vamos falar hoje um pouco, das necessidades básicas de infância.Quando estas necessidades centrais não são atingidas é interrompido o normal e saudável desenvolvimento da criança formando-se assim certos padrões que podem ser disfuncionais mais tarde na adolescência e estado adulto.

As necessidades básicas do bebé e da criança são resumidas brevemente de seguida:

1. segurança e estabilidade - um ambiente familiar seguro e estável que permita à crinça sentir-se segura.

2. vínculo seguro, amoroso e confiável com o cuidador principal - pode não ser atingido se a mãe ou o cuidador principal não for uma pessoa calorosa e amorosa que desfrute de proporcionar cuidados maternos, se estiver "indisponível" através de doença ou depressão ou se é emocionalmente instável e/ou imprevisível.

3. a necessidade de apoio ao longo do crescimento, movendo-se assim a criança de algum sentimento de incapacidade e dependência a um senso de competência (a funcionar no mundo), autonomia (capacidade de fazer as próprias escolhas). Isto pode não acontecer se a primeira necessidade de segurança não for satisfeita, deixando assim a criança a sentir-se receosa e insegura no mundo. Se os pais forem sobreprotetores e não incitarem a autonomia a criança também recebe a mensagem de que "não se deve aventurar e explorar o mundo por ela própria", tornando-se assim independente.

4. expressão apropriada de emoções e necessidades - se ao crescerem as crianças tiverem apoio e carinho suficientes elas irão aprender a identificar e a expressar os seus sentimentos e necessidades de maneiras apropriadas.

5. necessidade de auto-controlo e elaboração das reacções comportamentais e emocionais - quando a necessidade de segurança e estabilidade não é atingida a criança pode experienciar emoções tão extremas que estão para além da sua capacidade para as modular. Aprender a gerir as próprias emoções toma lugar na relação e em relação com um cuidador principal carinhoso que lê e reflete aquilo que a criança está a sentir - na maioria dos casos da nossa sociedade ocidental - a mãe.

6. a necessidade de expressão de espontaneidade, brincadeira e criatividade - quando estes aspetos eram raros ou inexistentes na infância - mais tarde torna-se menos habitual o contato com estas facetas da natureza humana.

Terra Calma, Psicologia Clínica

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segunda-feira, 07 agosto 2017 11:40

BIOLOGIA DO TRAUMA E DO MEDO (Parte 2)

 

As respostas emocionais podem ocorrer sem a participação de sistemas de processamento superior do cérebro, envolvidos no pensamento, no raciocínio e na consciência.

Visto que uma memória emocional é armazenada na amígdala, a exposição posterior aos estímulos que lembram, mesmo levemente, aqueles que estavam presentes durante o trauma irão ativar a reacção de medo. A amígdala evoca respostas e não as inibe.

O sistema amigdaliano é anterior, em termos evolutivos aos córtices superiores. Quando uma pessoa se depara com uma ameaça a amígdala dispara uma resposta de medo que mudou muito pouco ao longo dos tempos e que é compartilhada em todo o reino animal, talvez até mesmo em espécies inferiores. O hipocampo também integra a parte evolutivamente mais antiga do cérebro, mas liga-se ao neocórtex, que contém os córtexes superiores de desenvolvimento mais tardio.

Um dos primeiros objectivos da terapia do esquema (Young, 2003) é a consciência psicológica. O terapeuta ajuda os pacientes a identificar os seus padrões disfuncionais e a tornar-se consciente das suas memórias de infância, emoções, sensações corporais, pensamentos e "formas de lidar com a dor emocional" associados a estes padrões disfuncionais. Uma vez que entendam os seus padrões disfuncionais e as "maneiras como lidam com eles", os pacientes começam a exercer algum controlo sobre as suas respostas e comportamento, aumentando o exercício do livre arbítrio em relação aos padrões de vida disfuncionais.

A psicoterapia tem o objectivo de aumentar o controlo consciente sobre estes padrões, trabalhando para enfraquecer as memórias, emoções, sensações corporais, cognições e comportamentos associados a eles.

O trauma infantil precoce afeta várias outras partes do nosso corpo. Tal como Babette Rothschild (2000) demonstrou, "o corpo lembra-se". Os primatas separados das suas mães experimentam níveis elevados de cortisol plasmático. Se as separações se repetem, essas mudanças tornam-se permanentes. Parafraseando um estudo em que se observaram estas situações: " Outras mudanças neurobiológicas resultantes da separação precoce da mãe são as mudanças nas enzimas que sintetizam catecolamina nas glândulas adrenais e a secrecção de serotonina hipotalâmica." Pesquisas com primatas também sugerem que o sistema opióide está envolvido na regulação da ansiedade de separação e que o isolamento social afeta a sensibilidade e o número de receptores de opióides cerebrais.

Evidentemente, experiências de separação precoce (padrão de abandono/instabilidade) resultam em mudanças físicas que afetam o funcionamento psicológico e que podem muito bem perdurar toda a vida.

Os esquemas nunca desaparecem de todo, mas não desanimemos, em lugar disso, quando curados, estes esquemas ou padrões disfuncionais ativam-se com menos frequência e o sentimento associado torna-se menos intenso, não durando tanto. As pessoas passam a responder à ativação dos seus esquemas de forma saudável. Escolhem parceiros e amigos mais amorosos, e vêm-se a si mesmos de forma mais positiva, são estas as possibilidades de fazer psicoterapia.

Indo ao encontro das palavras da autora Psicodinâmica Nancy McWilliams (2012) a mudança torna-se possível a partir do momento em que as mudanças no comportamento são congruentes com as nossas mudanças internas. E mudamos internamente quando ganhamos a consciência das nossas dinâmicas, tornando-se assim possível o nosso livre arbítrio e a liberdade em escolhermos os comportamentos que mais vão ao encontro das nossas necessidades emocionais.

Quase todas as pessoas com questões de personalidade e padrões de vida disfuncionais repetem, de forma auto-derrotista, padrões negativos advindos da infância. De maneira crónica e generalizada, desenvolvem pensamentos, emoções, comportamentos e modos de se relacionarem que perpetuam os seus padrões disfuncionais. A psicologia cognitiva denomina estas situações de profecias auto-confirmatórias, já Freud (no início do século XX) falou na compulsão de repetição, ou seja, numa necessidade inconsciente de recriarmos compulsivamente situações de vida desadaptativas que nos são familiares. Ao fazê-lo, continuamos, involuntariamente a recriar nas nossas vidas adultas as condições que mais nos prejudicaram na infância. Curioso hum?

Texto fornecido por João Carvalho, Psicólogo Clínico, Terra Calma

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quinta-feira, 03 agosto 2017 19:24

BIOLOGIA DO TRAUMA E DO MEDO (Parte 1)

 

Em Psicoterapia define-se um padrão de vida disfuncional como um conjunto de memórias, emoções, sensações corporais e cognições (pensamentos) que giram em torno de um tema de infância, tal como abandono, abuso, negligência ou rejeição.

Assim, quando encontramos estímulos reminiscentes dos eventos de infância que levaram ao desenvolvimento desse padrão disfuncional, as emoções e sensações corporais associadas ao evento são activadas inconscientemente pelo sistema amigdaliano; se o indivíduo está consciente delas, as emoções e sensações corporais ativam-se mais rapidamente do que os pensamentos. Esta ativação das emoções e sensações corporais é automática e provavelmente constituirá uma característica permanente da vida do indivíduo, embora o grau de ativação possa ser reduzido com a cura deste padrão disfuncional ou esquema. Por sua vez, as memórias e as cognições (pensamentos) associados ao trauma armazenam-se no sistema hipocampal e nos córtices superiores.

Os aspectos cognitivos e emocionais da experiência traumática localizam-se em diferentes sistemas cerebrais. Isto explica a impossibilidade de se alterarem estes padrões disfuncionais por meio de métodos cognitivos simples. Além do mais, os componentes cognitivos de um padrão disfuncional, inúmeras vezes, desenvolvem-se posteriormente, depois de as emoções e as sensações corporais estarem armazenadas na amígdala. Muitos padrões disfuncionais desenvolvem-se numa etapa pré-verbal, originando-se antes que a criança tenha adquirido linguagem. Os esquemas pré-verbais surgem quando a criança é tão pequena que tudo o que está armazenado são memórias, emoções e sensações corporais. As cognições (pensamentos) surgem mais tarde, quando a criança começa a pensar e a falar palavras. (Este é um dos papéis do psicoterapeuta: ajudar o paciente a atribuir palavras à experiência destes padrões disfuncionais ou esquemas). Esta situação coincide muito com o conteito de Peter Fonagy acerca de mentalização, ou seja, de refletirmos sobre a nossa experiência, sobre aquilo que estamos a sentir e a experienciar. Portanto as emoções têm primazia em relação às cognições (pensamentos) no trabalho com vários destes esquemas ou padrões disfuncionais.

Quando se ativa um esquema ou um padrão disfuncional, a pessoa é inundada por emoções e sensações corporais. A pessoa pode ligar conscientemente ou não as emoções e sensações corporais à memória original. (Este é outro papel do Psicoterapeuta: ajudar o paciente a ligar as emoções e sensações corporais a memórias de infância). As memórias encontram-se no coração do esquema, mas, via de regra não estão explícitas na consciência, mesmo sobre a forma de imagens. O terapeuta proporciona o apoio emocional à medida que o paciente luta para reconstruir essas imagens.

Diferentes áreas do cérebro podem ficar ativas num determinado esquema ou padrão disfuncional em diferentes vezes. O hipocampo está interligado à parte cognitiva e consciente da memória traumática e, consequentemente ligado à memória cognitiva (parte dos pensamentos, crenças e ideias associados a esta memória). A amigdala está interligada à parte emocional e às sensações corporais associadas ao trauma e, consequentemente ligada à memória emocional. Colocando as coisas em resumido: o hipocampo associa-se à parte da memória traumática associada ao pensamento e a amígdala às emoções e sensações corporais desta mesma memória.
Hoje em dia chega-se à conclusão que também o hemisfério esquerdo do cérebro se associa à linguagem e aos pensamentos, ideias e crenças que temos sobre as situações ou experiências; o hemisfério direito associa-se às emoções e à parte emocional da experiência, seja ela um sinal, um sintoma, uma emoção. Torna-se importante nas sessões de psicoterapia intervenções que levem à integração destes dois hemisférios, ou seja, a pensarmos sobre o que sentimos e sentirmos sobre o que pensamos.

Texto fornecido por João Carvalho, Psicólogo Clínico, Terra Calma

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