BIOLOGIA DO TRAUMA E DO MEDO (Parte 2)

segunda-feira, 07 agosto 2017 11:40
Dr. João Carvalho

 

As respostas emocionais podem ocorrer sem a participação de sistemas de processamento superior do cérebro, envolvidos no pensamento, no raciocínio e na consciência.

Visto que uma memória emocional é armazenada na amígdala, a exposição posterior aos estímulos que lembram, mesmo levemente, aqueles que estavam presentes durante o trauma irão ativar a reacção de medo. A amígdala evoca respostas e não as inibe.

O sistema amigdaliano é anterior, em termos evolutivos aos córtices superiores. Quando uma pessoa se depara com uma ameaça a amígdala dispara uma resposta de medo que mudou muito pouco ao longo dos tempos e que é compartilhada em todo o reino animal, talvez até mesmo em espécies inferiores. O hipocampo também integra a parte evolutivamente mais antiga do cérebro, mas liga-se ao neocórtex, que contém os córtexes superiores de desenvolvimento mais tardio.

Um dos primeiros objectivos da terapia do esquema (Young, 2003) é a consciência psicológica. O terapeuta ajuda os pacientes a identificar os seus padrões disfuncionais e a tornar-se consciente das suas memórias de infância, emoções, sensações corporais, pensamentos e "formas de lidar com a dor emocional" associados a estes padrões disfuncionais. Uma vez que entendam os seus padrões disfuncionais e as "maneiras como lidam com eles", os pacientes começam a exercer algum controlo sobre as suas respostas e comportamento, aumentando o exercício do livre arbítrio em relação aos padrões de vida disfuncionais.

A psicoterapia tem o objectivo de aumentar o controlo consciente sobre estes padrões, trabalhando para enfraquecer as memórias, emoções, sensações corporais, cognições e comportamentos associados a eles.

O trauma infantil precoce afeta várias outras partes do nosso corpo. Tal como Babette Rothschild (2000) demonstrou, "o corpo lembra-se". Os primatas separados das suas mães experimentam níveis elevados de cortisol plasmático. Se as separações se repetem, essas mudanças tornam-se permanentes. Parafraseando um estudo em que se observaram estas situações: " Outras mudanças neurobiológicas resultantes da separação precoce da mãe são as mudanças nas enzimas que sintetizam catecolamina nas glândulas adrenais e a secrecção de serotonina hipotalâmica." Pesquisas com primatas também sugerem que o sistema opióide está envolvido na regulação da ansiedade de separação e que o isolamento social afeta a sensibilidade e o número de receptores de opióides cerebrais.

Evidentemente, experiências de separação precoce (padrão de abandono/instabilidade) resultam em mudanças físicas que afetam o funcionamento psicológico e que podem muito bem perdurar toda a vida.

Os esquemas nunca desaparecem de todo, mas não desanimemos, em lugar disso, quando curados, estes esquemas ou padrões disfuncionais ativam-se com menos frequência e o sentimento associado torna-se menos intenso, não durando tanto. As pessoas passam a responder à ativação dos seus esquemas de forma saudável. Escolhem parceiros e amigos mais amorosos, e vêm-se a si mesmos de forma mais positiva, são estas as possibilidades de fazer psicoterapia.

Indo ao encontro das palavras da autora Psicodinâmica Nancy McWilliams (2012) a mudança torna-se possível a partir do momento em que as mudanças no comportamento são congruentes com as nossas mudanças internas. E mudamos internamente quando ganhamos a consciência das nossas dinâmicas, tornando-se assim possível o nosso livre arbítrio e a liberdade em escolhermos os comportamentos que mais vão ao encontro das nossas necessidades emocionais.

Quase todas as pessoas com questões de personalidade e padrões de vida disfuncionais repetem, de forma auto-derrotista, padrões negativos advindos da infância. De maneira crónica e generalizada, desenvolvem pensamentos, emoções, comportamentos e modos de se relacionarem que perpetuam os seus padrões disfuncionais. A psicologia cognitiva denomina estas situações de profecias auto-confirmatórias, já Freud (no início do século XX) falou na compulsão de repetição, ou seja, numa necessidade inconsciente de recriarmos compulsivamente situações de vida desadaptativas que nos são familiares. Ao fazê-lo, continuamos, involuntariamente a recriar nas nossas vidas adultas as condições que mais nos prejudicaram na infância. Curioso hum?

Texto fornecido por João Carvalho, Psicólogo Clínico, Terra Calma