BIOLOGIA DO TRAUMA E DO MEDO (Parte 1)

quinta-feira, 03 agosto 2017 19:24
Dr. João Carvalho

 

Em Psicoterapia define-se um padrão de vida disfuncional como um conjunto de memórias, emoções, sensações corporais e cognições (pensamentos) que giram em torno de um tema de infância, tal como abandono, abuso, negligência ou rejeição.

Assim, quando encontramos estímulos reminiscentes dos eventos de infância que levaram ao desenvolvimento desse padrão disfuncional, as emoções e sensações corporais associadas ao evento são activadas inconscientemente pelo sistema amigdaliano; se o indivíduo está consciente delas, as emoções e sensações corporais ativam-se mais rapidamente do que os pensamentos. Esta ativação das emoções e sensações corporais é automática e provavelmente constituirá uma característica permanente da vida do indivíduo, embora o grau de ativação possa ser reduzido com a cura deste padrão disfuncional ou esquema. Por sua vez, as memórias e as cognições (pensamentos) associados ao trauma armazenam-se no sistema hipocampal e nos córtices superiores.

Os aspectos cognitivos e emocionais da experiência traumática localizam-se em diferentes sistemas cerebrais. Isto explica a impossibilidade de se alterarem estes padrões disfuncionais por meio de métodos cognitivos simples. Além do mais, os componentes cognitivos de um padrão disfuncional, inúmeras vezes, desenvolvem-se posteriormente, depois de as emoções e as sensações corporais estarem armazenadas na amígdala. Muitos padrões disfuncionais desenvolvem-se numa etapa pré-verbal, originando-se antes que a criança tenha adquirido linguagem. Os esquemas pré-verbais surgem quando a criança é tão pequena que tudo o que está armazenado são memórias, emoções e sensações corporais. As cognições (pensamentos) surgem mais tarde, quando a criança começa a pensar e a falar palavras. (Este é um dos papéis do psicoterapeuta: ajudar o paciente a atribuir palavras à experiência destes padrões disfuncionais ou esquemas). Esta situação coincide muito com o conteito de Peter Fonagy acerca de mentalização, ou seja, de refletirmos sobre a nossa experiência, sobre aquilo que estamos a sentir e a experienciar. Portanto as emoções têm primazia em relação às cognições (pensamentos) no trabalho com vários destes esquemas ou padrões disfuncionais.

Quando se ativa um esquema ou um padrão disfuncional, a pessoa é inundada por emoções e sensações corporais. A pessoa pode ligar conscientemente ou não as emoções e sensações corporais à memória original. (Este é outro papel do Psicoterapeuta: ajudar o paciente a ligar as emoções e sensações corporais a memórias de infância). As memórias encontram-se no coração do esquema, mas, via de regra não estão explícitas na consciência, mesmo sobre a forma de imagens. O terapeuta proporciona o apoio emocional à medida que o paciente luta para reconstruir essas imagens.

Diferentes áreas do cérebro podem ficar ativas num determinado esquema ou padrão disfuncional em diferentes vezes. O hipocampo está interligado à parte cognitiva e consciente da memória traumática e, consequentemente ligado à memória cognitiva (parte dos pensamentos, crenças e ideias associados a esta memória). A amigdala está interligada à parte emocional e às sensações corporais associadas ao trauma e, consequentemente ligada à memória emocional. Colocando as coisas em resumido: o hipocampo associa-se à parte da memória traumática associada ao pensamento e a amígdala às emoções e sensações corporais desta mesma memória.
Hoje em dia chega-se à conclusão que também o hemisfério esquerdo do cérebro se associa à linguagem e aos pensamentos, ideias e crenças que temos sobre as situações ou experiências; o hemisfério direito associa-se às emoções e à parte emocional da experiência, seja ela um sinal, um sintoma, uma emoção. Torna-se importante nas sessões de psicoterapia intervenções que levem à integração destes dois hemisférios, ou seja, a pensarmos sobre o que sentimos e sentirmos sobre o que pensamos.

Texto fornecido por João Carvalho, Psicólogo Clínico, Terra Calma